quinta-feira, 16 de abril de 2015

Anne Rice ( Escritora) e sublimação

   Anne Rice cresceu em New Orleans vivendo num espectro de estimulação física e artística. Foi criada de um jeito diferente e exposta a grandes ideais que deram-na um apurado senso de auto-valorização. Sua imaginação desenvolveu-se e populou um mundo de fantasia, usando vários elementos do mundo do mistério completado com o sobrenatural. No entanto, seu senso de nuance e sua herança sulina e irlandesa tiveram influencia suficiente no seu estilo para torná-la uma grande escritora. Os eventos dramáticos que aconteceram em sua vida resultaram numa riqueza emocional que recheia suas obras e cativa muitos leitores. (RICE, Anne1992)

   Segundo RICE, Anne experimentou uma série de perdas em sua vida, incluindo a morte de sua mãe, que chegou a ameaçar sua própria saúde e paz. Ela sentia vontade de se render ao desespero tanto quanto a necessidade de resistir, paralelamente ela possuía o desejo de estudar, numa era em que tais valores eram estranhos a pessoas com a sua idade. Desde a infância, ela sentia-se diferente das outras crianças, nunca se encaixando em expectativas sociais. Ela variava entre a vontade de ser aceita e a vontade de ser ela mesma. Toda vez que se acertava, tornava-se mais forte, mas a vida mostrava-se mais negra. (RICE, Anne 1992)

   Segundo o site oficial de Anne Rice, RAMSLAND, Katherine, 2001 relata que Anne, quando tinha 20 anos de idade, escreveu histórias sobre sexo e erotismo, fascinada com a liberdade da experiência masculina e com suas próprias qualidades masculinas. E então outra tragédia aconteceu em sua vida: a perda da sua filha de 5 anos; até que ela achou um assunto que unisse dor, intensidade e o imaginário do impacto das experiências da vida e das perdas: o vampiro.

   Notando a compulsão e a sensualidade da mitologia vampírica, Anne utilizou sua própria intensidade física para delinear as qualidades eróticas. Ela colocou seus vampiros em relacionamentos que andavam em paralelo com a experiência homossexual, exatamente quando o ser homossexual significava exibir coragem de políticos pioneiros. Expressando seus desejos pessoais através de metáforas, ela conectou-se com estabelecimento e revolta. (RAMSLAND, Katherine, 2001)

   Mais a frente em seu texto relata que estimulada pelo seu sucesso, Anne explorou outros assuntos pelos quais era obcecada, misturando aspectos da sua vida com valores da vida de seus personagens. Seus próximos dois livros traçaram uma crise estrutural mais uma vez, mas não alcançaram sucesso. Anne teve que optar por seguir instruções de seus editores sobre o que venderia mais ou continuar com suas próprias visões. Desde quando "conformidade" nunca esteve no topo da sua lista, ela decidiu-se pela segunda opção. (RAMSLAND, Katherine, 2001)

   O trabalho de Anne Rice reflete sua própria vida. Ela procura por clareza de expressão como um meio de estabelecer clareza de valores. Ela utiliza suas "novelas" para aproximar-se, cada vez mais, do contato com a essência da vida, incluindo áreas proibidas pela sociedade. Sua vida dá autenticidade a seus personagens, mas seu trabalho também inclui qualidades místicas. Tendo vivido através de décadas de descontentamento social e possuindo o mecanismo de canalizar em seus textos um sentimento intimista, a biografia de Anne Rice nos convida a ver como os elementos universais e altamente contemporâneos em seus livros pode fazer-nos entender melhor nossas próprias vidas. (RAMSLAND, Katherine, 2001)

   Em 1972, aos 30 anos, Anne perde sua filha Michele, de cinco anos de idade, vítima de leucemia. Anne fica arrasada e passa quase um ano alcoolizada, incapaz de recuperar-se de tal choque. Quando em 1973, em cerca de 5 semanas, ela escreve o livro Entrevista com o Vampiro, a partir de um conto produzido em 1969. (RAMSLAND, Katherine, 2001) O livro de numero um das crônicas vampirescas da autora, conta um romance entre dois vampiros do século IX, sendo narrado pelo vampiro, Luis Du Pont Du Lac cria de Lestat de Lioncurt. A história narra a rivalidade destes vampiros, e a sede pela morte humana, mostrando-se notoriamente monstros sedutores, e à partir do contexto da história Louis acaba encontrando uma criança de 5 anos de idade que encontrava-se a beira da morte com sua mãe vítima de peste bubônica já morta a muitos dias, em estado de putrefação. Louis então concede aquela linda criança a oportunidade da vida eterna, alimentando-se para sempre de sangue humano, deixando que os séculos tornassem poucos minutos e a monstruosidade assassina dos vampiros se tornasse doce como um vinho. (RICE, ANNE,1992)

   Levantamos a hipótese que no livro, Anne retrata sua filha na personagem Claudia de 5 anos de idade, que é forçada a viver eternamente como criança, após virar vampira. Tal sentimento de "imortalidade", ocasionado por tais tragédias em sua vida, acabam sendo o grande motivo de tal fascínio por vampiros, personagens principais de seus livros. Além de que “Claudia” (vampira criança criada por Anne Rice no livro “entrevista com o vampiro”) é forçada por todas as hipóteses a se alimentar de sangue humano, assim como se assemelha ao real de “Michele” (filha de Anne Rice, falecida aos 5 anos de idade, vitima de Leucemia). Podemos levantar mais uma hipótese da história do livro com a mãe morta de "Claudia” já em estado de putrefação, como estava Anne Rice quando escreveu o livro, mesmo viva encontrava-se morta, afundada em depressão por não conseguir trazer de volta a vida de sua filha "Michelle”.

   Ainda assim o ponto forte da autora sempre foi sua incursão à fantasia. Geralmente os personagens sobrenaturais que cria, procuram por sua identidade numa espécie de "subcultura vampírica" que mescla morte e sexualidade. Ela invariavelmente apresenta seus vampiros como indivíduos com suas paixões, teorias, sentimentos, defeitos e qualidades como os seres humanos, mas tendo que lutar pela sua sobrevivência através do sangue de suas vítimas e sua própria existência, que para alguns deles, é um fardo a ser carregado através dos milênios. São temas também desses romances o homossexualismo, o ateísmo, a imortalidade, a vaidade e as relações entre o bem e o mal.

   Em 2002, seu marido Stan Rice (marido de Anne Rice), morre vítima de um tumor cerebral, e Anne Rice passa por mais uma fase turbulenta, descobrindo inclusive ser diabética. Assim, em 2005, Anne declara que deixaria de escrever obras sobre vampiros, bruxas e outros seres fantásticos, e se dedicaria a outros gêneros literários. Lança então no mesmo ano o livro: “Cristo Senhor: a Saída do Egito, que retrata o jovem Jesus, então aos sete anos de idade, partindo do Egito com a família para voltar para sua casa em Nazaré.” (RICE, Anne 2006)

   Em 2008, Anne lança um livro de memórias intitulado "Chamado para fora da escuridão: uma confissão espiritual", o que demonstra claramente seu novo rumo literário, "o cristão". Nele a escritora se remete a sua infância e em épocas em que possuía uma fervorosa fé católica e que os últimos acontecimentos em sua vida acabaram fazendo retornar tal sentimento de devoção. (RICE, ANNE 2008).

   Independente dos estilos, temas ou ideologias que a escritora possa seguir podemos levantar a hipótese de que a autora usou do mecanismo de Sublimação em seus trabalhos para concluir o luto, para criar novamente em uma visão saudável sua filha imortal, sua morte em vida, e suas constantes ambivalências da infância, criando em um aspecto fantástico, um mundo sobre natural que a autora conseguia controlar seu próprio mundo, o que estava muito distante de sua realidade.

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