quinta-feira, 9 de abril de 2015

Leonardo Da Vinci e a Sublimação

   Foi em 1910 que Freud escreveu sobre “A lembrança infantil de Leonardo da Vinci”, onde ele se propõe a estudar essa “grande figura da humanidade”, e a analisar as inibições de Leonardo tanto na vida sexual como nas atividades artísticas, além de, nesse texto, também desenvolver suas teorias em torno do conceito de sublimação. Freud considerou Leonardo um “gênio poliforme”, com uma versatilidade que o levou a ser artista, escritor e cientista brilhante, cujo desenvolvimento como investigador abafou e desviou em grande parte o seu desenvolvimento artístico.

   No Seminário 11, “Os quatro conceitos fundamentais em psicanálise", de 1964, Lacan comenta que, em Leonardo, a arte se mistura à ciência e, a partir dele, o quadro passou a ser organizado de uma maneira totalmente nova na história da arte. Leonardo foi considerado um homem à frente de sua época, com uma curiosidade incansável, com muitos talentos numa intensidade assombrosa, mas, na verdade, por mais genial que fosse, era apenas um homem que, como qualquer outro homem, era incapaz de escapar das marcas do Outro que irão constituir o sujeito.

   Freud, estudando Leonardo, inquietou-se com o fato dele ter deixado inacabados quase todos os seus trabalhos de pintura, porque buscava neles uma perfeição que ele próprio achava que nunca conseguiria encontrar, o que o levava a abandoná-los e a não se preocupar com o destino dos mesmos. Para pintar um quadro ele fazia vários desenhos, pesquisas e estudos preliminares, e era muito lento na sua execução. Essa lentidão de Leonardo é atribuída por Freud a uma intensa coerção interna para conseguir executar suas obras de uma forma ideal. A famosa frase de Leonardo, “quero fazer milagres”, mostra o que ele buscava realizar, e seu trabalho certamente nos faz vislumbrar esse desejo que o dirigiu e possibilitou a construção de sua genialidade.

   A partir das indicações da personalidade de Leonardo, Freud considerou suas pesquisas como sendo a meditação obsessiva dos neuróticos. Para combater esses excessos surgiu nele um recalque forte o suficiente para afastar sua puberdade de toda atividade sexual, tendo a maior parte de sua sexualidade sido sublimada numa ânsia de saber. Ao mesmo tempo em que Freud o vê como assexuado, em outro momento ele considera que seu amor excessivo pela mãe levou-o a tornar-se um homossexual. Lacan questiona se podemos falar de uma inversão de Leonardo, pois trata-se, na verdade, das marcas de uma inibição singular.
                                                                     “Já não abaixam os olhos, mas olham como no misterioso triunfo, como se soubessem de uma grande felicidade alcançada sobre a qual fosse preciso calar. O sorriso fascinante e arrasador deixa vislumbrar que se trata de um segredo de amor. É possível que nessas figuras Leonardo desmentisse e superasse na arte a infelicidade de sua vida amorosa, figurando, nessa beatífica reunião de uma essência masculina e feminina, o cumprimento do desejo do menino fascinado pela mãe." (FREUD, S. 1976 p.101.)

   Mais à frente a arte é vista por Freud como sendo uma satisfação substitutiva que é psiquicamente eficaz, devido ao papel que a imaginação e a fantasia ocupam na vida anímica; ela é um modo específico de organização em torno do vazio, e a obra de arte é uma forma de cingir a Coisa. Na arte, “o objeto é instaurado numa certa relação com a Coisa que é feita simultaneamente pra cingir, para presentificar e para ausentificar.(...) É sempre contra a corrente que a arte tenta operar novamente seu milagre” (LACAN, J. O 1990 p. 176.)

   A obra da sublimação não se limita à obra de arte, pois ela se estende a toda atividade que reproduz essa estrutura, essa reprodução da falta. Os três termos que Freud define para a sublimação são a arte, a religião e a ciência. Nesse sentido, Leonardo da Vinci não poderia ser um exemplo melhor, uma vez que ele passeou com a mesma desenvoltura pelos três tipos de sublimação: na arte, com seus belíssimos quadros, esculturas e desenhos; na religião, embora ele não tenha sido uma pessoa especificamente religiosa, mas sua relação com a natureza e sua admiração pelo Criador do universo tinham um caráter religioso; e na ciência, com suas infindáveis pesquisas. Podemos então concluir que foi ao re-trabalhar a falta de um modo infinitamente repetido que Leonardo alcançou o limite da obra de arte.

   Com isso podemos entrar na questão Segundo Pacteau, Francette (1994) em seu texto ela questiona- Qual a origem do desenho? SINGH Kalu(2005) relata em sua obra que a origem do desenho baseia-se em uma lenda da qual uma jovem desenha o contorno da sobra de seu amado, em uma parede branca. Singh completa dizendo que pode vir rapidamente na nossa mente as possíveis teorias que Freud citava em sua obra na seguinte frase: “ a sombra do objeto recaiu sobre o ego” (FREUD, S. 1915). E aqui Singh lança uma duvida sobre o porque a lenda preferiu alguém do sexo feminino. SINGH Kalu(2005)

   “A visão matemática do corpo ‘bem-proporcionado’ oferece um exemplo privilegiado de sublimação” Pacteau, Francette (1994 p 91) descreve que neste termo ,Pacteau refere-se a Sublimação do próprio corpo , ou do corpo de outrem em manifestação artística , a autora impõe uma “sublimação sob medida erógena” como se o corpo fosse um alvo da Sublimação principalmente em termos da arte, como assim aconteceu dos primórdios contemplando seus corpos em caças em pinturas rupestres, mas tarde no Egito com pinturas de adoração á deuses , e mais tarde na Grécia com um toque Sub-Humano do corpo perfeitamente sublimado e inalcançável.

   Segundo Lacan, ”O significante entra de fato no significado”, com esta frase podemos seguir a linha de pensamento completando que são desses significados que nascem os desconhecidos que me definem como eu, a partir de minhas vivencias e relações com o mundo a imagem que eu crio e o que eu vejo é o que me torna. (LACAN 1959 p.241)

   Podemos dizer que a Sublimação vem de coisas que vividas, internalizadas pelo individuo são recalcadas se tornam outras coisas. Coisas Sublimadas.Segundo Lacan: “(...) anéis cujo o colar se fecha no anel de um modo que o colar é feito de anéis”. (LACAN 1998 p.505). Nesta frase o autor afirma que a partir de uma vivencia que o individuo sofre, internaliza-se inconscientemente a vivencia inicial, sendo positiva ou negativa, sofre uma mudança e é sublimada em uma forma saudável para o meio.

   Porém há também como já discorremos no primeiro capitulo sobre a pulsão de morte, mas agora então ligaremos esta pulsão com a realidade artística para além da representação simbólica que Freud afirmou que a :” Sublimação tem forte influencia ao individuo e uma poderosa atuação por tal, mantendo a ausência do vazio, e esta ‘ausência do vazio’ podemos considerar de fato como já citado a pulsão negativa, ou pulsão de morte. A ação da tendência pulsional de Tânatos levou Freud a afirmar: “O principio do prazer parece, na realidade, servir ás pulsões de morte” (FREUD. 1920 p.85). Ligando esta citação de Freud com a arte , podemos compreender que a sublimação pode-se vir da pulsão de morte ou pulsão de vida, ou simplesmente a boa vontade e a má vontade.



(Fig.5 Leonardo da vinci. (La Gioconda)c. 1503-5 Oil on panel, 77 x 53 cm Musée du Louvre, Paris.- Nesta obra podemos analisar que Leonardo ainda estava fixado nos olhos que conhecia como amor durante a infância que nos leva a acreditar que há uma forma de sublimação para satisfazer essa pulsão ainda não desvinculada pelo artista.


   Lacan afirma em seu texto no seminário 11: ”Queres olhar? Pois bem, veja então isso!", ele oferece algo como postagem para o olho, mas convida aquele a quem o quadro é representado e a depor ali seu olhar, como se depõem armas. [...] Algo é dado não tanto ao olhar quanto ao olho, algo que comporta abandono, disposição, do olhar” (LACAN 1964, p 99). Nesta frase Lacan fala sobre o que o pintor faz com quem olha a obra, é o que torna a obra de fato importante, não somente o que o artista colocou em sua obra, mas como o individuo a vê. Qual o prazer ligado ao ver a obra, o que sente, e este prazer gera prazer. Nisto acontece uma troca de sublimações, interligando o que o artista sente, passando aos olhos de quem vê.

   Pablo Picasso em questão de suas próprias obras diz: “Que verdade? A verdade não pode existir.Se eu procurar verdade na minha tela, conseguirei fazer cem telas com essa verdade. Então , qual seria a verdadeira? E o que é verdade? Aquela que serve de modelo ou aquela que pinto? Não é como em todo o resto. A verdade não existe. Se houvesse uma só verdade, não seria possível pintar cem telas com o mesmo tema. Tudo tem que mudar. É preciso encontrar sempre o nunca-visto. Trata-se de um autentico quebra-cabeças. Todavia, quando se procura um nunca-visto, depressa se verifica que já foi visto”. (PICASSO apud. PARMELIM. 1968 p. 104). 

   A verdade para Pablo Picasso, assim como para qualquer outro artista é sua própria verdade, seus próprios sentimentos, sua verdade interna, por fim seu inconsciente com meio pulsional sublimado em ‘sua verdade’. Essa verdade interna como o próprio autor diz: ”Desta vez, disseram que eu tinha posto o nariz de lado, mas tive que pinta-lo assim para mostrar que era um nariz.Tinha certeza que mais tarde iriam ver que não era a maneira errada de fazer, e sim minha maneira.” (PICASSO apud RUHRBERG, 1999, p.68)

   Para finalizarmos este post entraremos no ideal de SINGH, Kalu quando descreve em seu capitulo no livro ‘Sublimação - Conceitos da Psicanálise’ que “Se os artistas experimentam o zênite da capacidade de sublimação, o equilíbrio perfeito entre os instintos sexuais e a expressão criativa, porque eles parecem querer tanto sexo, e quase sempre um sexo insatisfatório e cruel? Porque raramente saibam o que é equilíbrio.” Neste contexto Singh refere-se ao porque de mesmo sabendo sublimar, o artista ainda torna-se um ser representativamente cruel para si e para o outrem.como o mesmo ainda continua em seu texto: ”A afirmação parece combinar com todos os clichês sobre artistas desordeiros adeptos de sexo, drogas e rock n’ roll”. Pois neste contexto o artista sublima de um modo sob a pulsão de morte, envolto de seu sistema pulsional significativo, porém o mesmo não tem energia suficiente para efetivar seu trabalho artístico e trazê-lo para vida da qual vive, vivendo um completo paradoxo, entre sublimar e ser sublimado pela própria arte. 

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