quinta-feira, 23 de abril de 2015

Vicent Van Gogh (Pintor) e a Sublimação

 
   Van Gogh nasceu no mesmo dia e mês, um ano depois do primogênito do pastor Theodorus e de Ana. No seu registro de nascimento na paróquia do pai, tem o número 29, o mesmo do irmão, falecido com 6 meses, lapso que aponta seu lugar no desejo do Outro: um objeto por outro (VAN GOGH, 2002, 422).

   Se “nomear, dizer é um ato” (LACAN, 1974-75, lição 18/3/1975), o batismo é o ato pelo qual se indica a entrada do sujeito no mundo pela atribuição de um nome, nome que fixa sua referência ao ser. 
   
   O genial artista recebe o mesmo nome do irmão morto - Vincent Willen Van Gogh. Dar um nome à alguém implica numa descrição exitosa, pois o objeto passou a ter um nome. Mas a descrição associada ao batismo pode ser falsa, por isso o Nome próprio não é a a abreviatura, o acumulo 
de descrições mais ou menos verdadeiras do objeto, mas sim é algo da ordem da nominação. Ter um nome indica também uma classe, mas esta função classificatória esta ligada ao tabu que acompanha o nome: não dar nome do morto a outro (interdição cultural), e não pronunciar o nome do morto (interdição pela homofonia). Em Totem e Tabu, Freud indica que no tabu, o primitivo toma nome próprio como metonímia do sujeito.
   “Mesmo antes do nascimento de um filho, as relações entre seus genitores, são organizadas pela palavra; elas se situam no mesmo quadro das ‘leis da linguagem’.
    
   As circunstâncias que presidiram ao encontro de seu pai e sua mãe, sua própria história, já formam uma constelação que antecede até sua concepção. ‘Isso fala dele’ de múltiplas maneiras. Ele é aguardado com esperança ou com receio. Ele se impõe ou é desejado, assim como pode ser pedida ajuda da ciência para sua vinda. Não é indiferente o momento de sua chegada, que sobrevenha, por exemplo, após o luto de um parente... Será dotado de um nome sobre o qual concordam os pais, e de uma maneira que excede o querer de uns e de outros, de sobrenome, etc.” ( MILLER,1989)

   Van Gogh pintava constantemente auto-retratos e quadros de sua própria visão, apesar da insistência do amigo em que ele pintasse de memória. Como poderia se não tinha história, pois estava justamente tentando “objetivar” sua história. Dentre momentos de calmaria, novas crises vinham. Numa delas, Vincent tenta engolir as próprias tintas com as quais trabalhava. Talvez numa tentativa de dar cor e vida à vida de um morto. Esse período de delírio é seu período mais fértil em que pinta quase duzentos quadros, dentre eles, ‘OS CIPRESTES’.

   Em 27 de julho de 1890, aos 37 anos, Vincent dá um tiro no peito no mesmo trigal que havia pintado e morre dois dias depois nos braços do irmão Théo.

   O processo criativo de Vincent Van Gogh transita no horror e na beleza, na vida e na morte, na busca da identidade, porém não na fuga do sofrimento. Em 1884, Vincent escreve a Théo parafraseando Millet: “Não quero de nenhuma maneira suprimir o sofrimento porque é o que faz expressar mais energicamente os artistas”. Podemos dizer que a arte de Van Gogh era sua linguagem e, além de seu caráter de mensagem, cumpria essencialmente a função de sua própria sublimação em contextos de sublimação de pulsões de vida e de morte.

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